domingo, 4 de julho de 2010

Aula 02 - A NATUREZA DA ATIVIDADE PROFÉTICA

Texto Base: Jeremias 1: 4-6; 9-14

Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”(Hb 1:1)

INTRODUÇÃO
Nesta aula estudaremos a natureza da atividade profética, ou seja, o “modo de operação” da transmissão dos oráculos divinos aos profetas e, por conseguinte, dos profetas ao povo. Ao longo dos séculos, Deus sempre quis - e quer - comunicar-se com o homem. A princípio, falando diretamente com o ser criado. Logo no primeiro livro da Bíblia podemos perceber como Deus conversava livremente com os primeiros seres humanos. O próprio Deus deu as primeiras instruções sobre a maneira de viver, para Adão e Eva (Gn 1:28, 29). Infelizmente, essa comunicação face a face foi perdida pelo pecado, o qual separou o homem de Deus. Todavia, depois da Queda, embora à distância, Deus sempre quis falar ao homem, transmitindo sua vontade divina e soberana com o fim de trazer-lhes comunhão, direção, ensino, revelação e para que possamos entendê-lo. Na realidade, Deus não parou de se comunicar com o homem. Ele falou e fala aos seres humanos muitas vezes e de muitas maneiras como bem afirma o apóstolo Paulo em Hebreus 1:1. Deus acrescentou ao Seu sistema próprio de comunicação um plano que envolvia a intermediação humana: “Ele falou muitas vezes e de muitas maneiras... por meio dos profetas”(Hb 1:1,2). O “profeta” foi a forma mais reconhecida de comunicação divina, ou seja, os profetas eram os representantes oficiais de Deus perante seu povo. Sua obra era receber a mensagem divina e transmiti-la fielmente. “Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas”(Amós 3:7). “O Senhor, Deus de seus pais, começando de madrugada, falou-lhes por intermédio dos Seus mensageiros, porque Se compadecera do Seu povo”(2Cr 36:15). Profetizar era algo tão sério que a pena para o profeta que se usava em nome de Deus era clara: a morte - “Mas o profeta que tiver a presunção de falar em meu nome alguma palavra que eu não tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá”(Dt 18:20).
I. AS FORMAS DE COMUNICAÇÃO DE DEUS AOS PROFETAS
1. “[...] Veio a mim a palavra do Senhor”(Jr 1:4
). Aqui encontramos Deus conversando pessoalmente com o profeta Jeremias. Um diálogo resultante entre a divindade e a humanidade. Conseguimos enxergar a intimidade que pode existir entre Deus e os homens. A maioria dos profetas recebia diretamente do Senhor e de forma repentina a mensagem a ser transmitida ao destinatário, em sua maior parte ao povo de Israel e aos seus líderes. Somente o profeta, o homem de Deus, ouvia a voz divina. Essa é a forma direta de comunicação de Deus aos profetas do Antigo Testamento. Outros exemplos dessa forma de comunicação podemos ver na Bíblia, tal como aconteceu com Samuel quando foi ungir Davi - “E sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido. Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a altura da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem. Pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração” (1Sm 16:6,7).
Outro exemplo: o que sucedeu ao profeta Isaias ao se encontrar com o rei Acaz - “[...]. Então, disse o Senhor a Isaías: Agora, tu e teu filho Sear-Jasube, saí ao encontro de Acaz, ao fim do canal do viveiro superior, ao caminho do campo do lavandeiro. E dize-lhe: Acautela-te e aquieta-te; não temas, nem se desanime o teu coração por causa destes dois pedaços de tições fumegantes, por causa do ardor da ira de Rezim, e da Síria, e do filho de Remalias”(Is 7:1-4).
2. Revelação divina em forma de diálogo. Para justificar esta forma de comunicação entre Deus e o seu profeta, veja o exemplo de Jeremias, quando de sua vocação ao grande ofício que Deus lhe estava confiando perante o povo de Judá: “Então, disse eu: Ah! Senhor Jeová! Eis que não sei falar; porque sou uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: Eu sou uma criança; porque, aonde quer que eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar dirás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. E estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca e disse-me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca”(Jr 1:6-9).
Vemos aqui um perfeito diálogo entre o profeta Jeremias e o Senhor Jeová. Jeremias está face a face com as exigências divinas para a sua vida. Também é possível observar nesse momento dramático a determinação de Deus por um lado e a hesitação de Jeremias por outro. Ele está atordoado com a responsabilidade que lhe é colocada. Surpreso e consternado, ele clama: “Eis que não sei falar; porque sou uma criança”. A hesitação desse momento acaba se tornando uma característica de Jeremias ao longo de sua carreira. Sua natureza sensível não é compatível com a tarefa sobre-humana que está à sua frente. A presença tremenda de Deus era esmagadora; o terror da completa entrega de si mesmo e do futuro para Deus teria abalado o mais corajoso de coração. Sua reação natural foi protestar, e isso ele fez de forma veemente. No entanto, seus protestos somente revelam a humildade da sua mente, seus sentimentos de indignidade e o conhecimento das suas próprias limitações.
Deus sempre implementa seus próprios planos. Jeremias não foi deixado sozinho para realizar a ordem de Deus apenas com sua capacidade meramente humana. “E estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca”. O propósito de Deus de separar Jeremias para um serviço especial é agora implementado pelo toque divino. Foi nesse momento que ele foi oficialmente empossado no ofício profético. A partir desse momento a unção divina o impeliria a anunciar a palavra de Deus: “Eis que ponho as minhas palavras na tua boca”. Jeremias está agora qualificado a cumprir sua tarefa profética. Deus, desse modo, através dessa comunicação direta e pessoal com o profeta, implementa seu propósito pelo poder do Espírito Santo.
3. Visão ou sonho – “E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele me farei conhecer ou em sonhos falarei com ele”(Nm 12:6).
a) A Visão. Forma que Deus utilizava para transmitir seus oráculos aos profetas no Antigo Testamento. Visão é uma manifestação divina em que subitamente Deus faz ver e por vezes também ouvir coisas. É algo fora da contemplação ou percepção humana comum e natural. E que em determinado momento pode atuar interligada com a revelação. Vejamos alguns exemplos na Bíblia:
As visões de Jeremias: A visão da vara de amendoeira (Jr 1:11,12) e a visão da panela fervendo(Jr 1:13-15). Ambas significando, respectivamente, o juízo rápido e forte de Deus contra o reino apóstata de Judá(1:14).
Abrão recebeu uma visão em que Deus lhe falou e lhe disse que a sua recompensa seria grandíssima(cf. Gn. 15:1-3).
Moisés teve uma visão em Horebe, em que lhe apareceu o anjo do Senhor que o enviou ao Egito para libertar o povo de Israel(cf. Ex. 3:1-22).
O profeta Isaías viu o Senhor dos Exércitos assentado sobre um alto e sublime trono e por cima dele estavam serafins, e Deus lhe falou e o enviou a profetizar ao seu povo(cf. Is. 6:1-13).
Daniel teve várias visões em que Deus lhe predisse eventos futuros (cf. Dn capítulos 7,8,9,10).
Pedro, Tiago e João, enquanto se encontravam no monte santo, tiveram uma visão celestial em que viram Moisés e Elias falar com Jesus que tinha sido transfigurado na sua presença, e também ouviram uma voz do céu(cf. Mt. 17:1-13).
Zacarias, o pai de João Baptista, teve uma visão enquanto se encontrava no templo. Nesta visão um anjo de Deus lhe preanunciou o nascimento de João João (cf. Lucas 1:5-22).
Maria, enquanto estava desposada com José, teve uma visão em que lhe apareceu o anjo Gabriel que lhe preanunciou que ela daria à luz um filho que seria chamado Filho do Altíssimo(cf. Lucas 1:26-38).
Paulo, enquanto se encontrava cego em Damasco, em oração viu em visão um homem de nome Ananias entrar na casa em que ele estava e impor-lhe as mãos para que recuperasse a vista(cfr. Atos 9:10-16).
Cornélio, que nesse tempo ainda não estava salvo, um dia enquanto orava viu em visão um anjo do Senhor que lhe disse para mandar chamar Pedro que lhe falaria de coisas pelas quais seria salvo ele e a sua casa(cf. Atos 10:1-8; 11:13-14).
b) O Sonho. O Sonho, sem ser necessariamente uma revelação de Deus, é apenas uma série de imagens acompanhadas de pensamentos e emoções, que a pessoa vê enquanto dorme. O Antigo Testamento menciona vários tipos de sonhos, incluindo o sonho comum com que estamos familiarizados (Jó 7:14; Ec 5:3).
Diferentemente, o sonho profético era outra maneira de Deus se revelar aos profetas. O versículo de Números 12:6 sugere que sonhos proféticos foram frequentemente usados para comunicar revelações de Deus aos seus profetas, tal como fez com Daniel: “No primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia, teve Daniel, na sua cama, um sonho e visões da sua cabeça; escreveu logo o sonho e relatou a suma das coisas”(Dn 7:1).
O Antigo Testamento menciona diferentes tipos de sonhos reveladores. Em alguns, Deus parece falar diretamente (como Gn 20:3-7; Mt 2:12-23). Em outros, a informação é comunicada em símbolos (como em Gn 40-41); Dn 2). Deus mesmo falava aos pagãos em sonhos, como a Faraó (Gn 40-41) e a Nabucodonosor(Dn 2).
Hoje, ainda existem visões e sonhos reveladores? Como dissemos, Deus falou para as pessoas diversas vezes nas Escrituras por meio de sonhos. Como, por exemplo, a José, filho de Jacó (Gênesis 37:5-10), José, marido de Maria (Mateus 2:12-22), Salomão (1Reis 3:5-15) e vários outros (Daniel 2:1; 7:1; Mateus 27:19). Há também uma profecia do profeta Joel (Joel 2:28), citada pelo apóstolo Pedro em Atos 2:17, que menciona Deus utilizando os sonhos. Portanto, Deus pode sim falar através de sonhos e visões, e o faz. Porém, não regularmente. Pois, Jesus Cristo é o clímax da revelação, como diz Hebreus 1:1 - “havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”. Temos em Jesus uma inteira e completa revelação do amor e da vontade de Deus.
Temos, outrossim, a Bíblia Sagrada como a mais completa e finalizada revelação de Deus à humanidade e o principal instrumento de comunicação, disponível a todos, tendo abordado todos os assuntos sobre os quais devemos saber de agora até a eternidade. Isso não significa que Deus não realiza milagres ou fala através de sonhos ou visões hoje em dia. A diferença é que Deus já revelou a forma que Ele escolheu para se comunicar com a humanidade de agora até a eternidade: a Bíblia. Qualquer coisa que Deus diga, seja em sonho ou em visão, estará completamente de acordo com o que Ele já revelou na Sua Palavra. Sonhos ou Visões não podem ter autoridade superior à da Bíblia. Devido à nossa crença na inspiração, autoridade e suficiência da Escritura, nós achamos muito pouco provável que Deus fale regularmente através de sonhos ou visões hoje em dia. Ao mesmo tempo, nós não podemos negar a possibilidade baseando-nos nas Escrituras.
Se você tem um sonho e acha que foi Deus que o deu a você, examine em oração a Palavra de Deus e tenha certeza de que o seu sonho está de acordo com as Escrituras. Caso positivo, considere em oração o que Deus quer que você faça em resposta ao sonho (Tiago 1:5). Nas Escrituras, sempre que alguém experimentou um sonho de Deus, Deus sempre tornou o significado do sonho claro, seja diretamente para a pessoa, através de um anjo, ou através de um mensageiro (Gênesis 40:5-11; Daniel 2:45; 4:19). Quando Deus fala conosco, Ele se assegura de que a mensagem é entendida claramente.
II. AS FORMAS DE TRANSMISSÃO DA MENSAGEM DOS PROFETAS AO POVO
1. Declaração oral e direta. Essa forma de transmissão foi a mais utilizada pelos profetas do Antigo Testamento. O porta-voz divino levava diretamente a alguém a mensagem. Suas mensagens, vindas do próprio Deus, podiam ser de repreensão, advertência, conforto ou ensino. Quanto ao seu cumprimento, podia ser imediato, no tocante à sua geração presente; ou escatológico, no tocante a um futuro não determinado. Como exemplo, citamos os seguintes profetas:
Samuel:Então, disse Samuel a Saul: Espera, e te declararei o que o Senhor me disse esta noite. E ele disse-lhe: Fala. E disse Samuel: Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos, não foste por cabeça das tribos de Israel? E o Senhor te ungiu rei sobre Israel”(1Sm 15:16,17).
Natã:E o Senhor enviou Natã a Davi; [...]. Então, disse Natã a Davi: [...] Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel e eu te livrei das mãos de Saul; e te dei a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em teu seio e também te dei a casa de Israel e de Judá; e, se isto é pouco, mais te acrescentaria tais e tais coisas. Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de seus olhos? A Urias, o heteu, feriste à espada, e a sua mulher tomaste por tua mulher; e a ele mataste com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para que te seja por mulher”(2Sm 12:1-10). Ver também 2Sm 7:8-17.
Gade:Porém o profeta Gade disse a Davi: Não fiques naquele lugar forte; vai e entra na terra de Judá. Então, Davi foi e veio para o bosque de Herete”(1Sm 22:5).
Hanani:Naquele mesmo tempo, veio Hanani, o vidente, a Asa, rei de Judá, e disse-lhe: Porque confiaste no rei da Síria e não confiaste no Senhor, teu Deus, o exército do rei da Síria escapou das tuas mãos”(2Cr 16:7).
Elias:E falar-lhe-ás, dizendo: Assim diz o Senhor: Porventura, não mataste e tomaste a herança? Falar-lhe-ás mais, dizendo: Assim diz o Senhor: No lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabote, os cães lamberão o teu sangue, o teu mesmo”(cf 1Rs 21:19-27).
Jeremias:Então, Jeremias disse a Zedequias: Assim diz o Senhor, Deus dos Exércitos, Deus de Israel: Se, voluntariamente, saíres, aos príncipes do rei da Babilônia, então, viverá a tua alma, e esta cidade não será queimada, e viverás tu e a tua casa”(Jr 38:17).
2. Figuras e símbolos proféticos. Tratam-se de ilustrações pictóricas utilizadas pelos profetas, cujo objetivo era chamar a atenção do seu interlocutor para a mensagem. Como exemplo, vejamos algumas atitudes simbólicas que representavam o juízo de Deus sobre o povo de Israel:
Desenho gravado num Tijolo: “Tu, pois, ó filho do homem, toma um tijolo, e pô-lo-ás diante de ti, e grava nele a cidade de Jerusalém”(Ez 4:1). Aqui Deus ordenou que Ezequiel simbolizasse o cerco de Jerusalém e o exílio subseqüente, por meio de atos específicos. Retratou estes eventos com uma miniatura de cerco da cidade.
A assadeira de ferro: “E tu toma uma assadeira de ferro, e põe-na por muro de ferro entre ti e a cidade, e dirige para ela o teu rosto; e assim será cercada, e a cercarás; isso servirá de sinal à casa de Israel”(Ez 4:3). A assadeira de ferro representa a força resistente dos babilônios. Mediante este ato simbólico, Ezequiel gravou na mente dos exilados o fato de que o próprio Deus ia enviar os babilônios contra Jerusalém.
Deitar sobre o lado esquerdo: “Tu também deita-te sobre o teu lado esquerdo e põe a maldade da casa de Israel sobre ele; conforme o número dos dias que te deitares sobre ele, levarás as suas maldades” (Ez 4:4). Deus mandou Ezequiel suportar, de modo simbólico, durante 390 dias(Ez 4:5), o castigo que Ele determinara sobre Israel e Judá. Cada dia que Ezequiel ficava deitado sobre o seu lado, representava um ano de pecado da nação hebréia como um todo. Ele não ficava o dia inteiro deitado sobre o seu lado, pois tinha outras tarefas a cumprir(Ez 4:9-17).
Cabeça raspada:E tu, ó filho do homem, toma uma faca afiada; como navalha de barbeiro a tomarás e a farás passar por cima da tua cabeça e da tua barba; então, tomarás uma balança e repartirás o cabelo. A terça parte queimarás no fogo, no meio da cidade, quando se cumprirem os dias do cerco; então, tomarás outra terça parte e feri-la-ás com uma espada ao redor dela; e a outra terça parte espalharás ao vento; porque desembainharei a espada atrás deles”(Ez 5:1,2). Ezequiel rapou a cabeça e a barba e dividiu seu cabelo em três porções, e assim simbolizou o destino dos habitantes de Jerusalém: A terça parte do cabelo queimada representava os que morreriam de peste ou de fome; a outra terça parte morreria pela espada e a última terça parte seria dispersa no exílio(ver Ez 5:12).
Vários outros símbolos e figuras foram utilizados pelos profetas, orientados por Deus, para transmitir seus oráculos ao povo de Israel. Foi o caso de Jeremias, quando utilizou, por ordem de Deus, os seguintes símbolos:
Um cinto de linho simbolizando o cativeiro de Judá: “Toma o cinto que compraste, e trazes sobre os teus lombos, e levanta-te; vai ao Eufrates e esconde-o ali na fenda de uma rocha. Sucedeu, pois, ao cabo de muitos dias, que me disse o Senhor: Levanta-te, vai ao Eufrates e toma dali o cinto que te ordenei que escondesses ali. E fui ao Eufrates, e cavei, e tomei o cinto do lugar onde o havia escondido; e eis que o cinto tinha apodrecido e para nada prestava. Assim diz o Senhor: Do mesmo modo farei apodrecer a soberba de Judá e a muita soberba de Jerusalém”(Jr 13:4 – 9).
O ato simbólico de Jeremias, com o cinto de linho, deu ao povo uma lição prática em forma de parábola. Israel e Judá eram o cinto de linho que o Senhor usava, simbolizando o estreito relacionamento de antigamente entre Deus e eles, quando eram féis. Agora, o povo tornou-se inútil e seria largado, como Jeremias fez com o cinto de linho.
A canga de madeira sobre o pescoço de Jeremias simbolizando submissão ao rei da Babilônia: “Assim me disse o Senhor: Faze umas prisões e jugos e pô-los-ás sobre o teu pescoço. E acontecerá que, se alguma nação e reino não servirem o mesmo Nabucodonosor, rei da Babilônia, e não puserem o pescoço debaixo do jugo do rei da Babilônia, visitarei com espada, e com fome, e com peste essa nação, diz o SENHOR, até que a consuma pelas suas mãos” (Jr 27:2, 8). Em 593 a.C, Nabucodonosor já havia invadido Judá uma vez e levado muitos judeus cativos. Jeremias vestiu uma canga (uma estrutura de madeira usada para prender alguns animais a um arado) como símbolo da escravidão. Era uma forma didática de ensinar a todos que deveriam submeter-se à Babilônia, caso contrário, seriam destruídos.
3. Casos reais que servem de representação para comunicar a mensagem. Essa forma de comunicação é utilizada para exemplificar a situação entre Deus e o povo. Chamada em hermenêutica de “oráculo por ação”, essa forma de transmissão de mensagem profética, por ordem de Deus, pode ser exemplificada mediante a experiência do casamento do profeta Oséias com a prostituta Gômer(Os 1:2,3).
O relacionamento entre Deus e Israel é frequentemente comparado a um contrato matrimonial (por exemplo, Is 54:5; Jr 3:14). “Desviando-se do Senhor”, a fim de adorar aos ídolos, Israel foi considerado por Deus como um caso de infidelidade ou prostituição espiritual. O casamento de Oséias deveria ser, portanto, uma lição prática para o infiel Reino do Norte. Deus chamou o profeta Oséias, que havia se casado com Gômer, uma mulher bonita, uma mulher inteligente, uma mulher amada, para representar o casamento de Deus com Israel. Oséias representaria Deus e Gômer representaria a nação de Israel. Há forte probabilidade de que Gômer não fosse prostituta por ocasião do seu matrimônio, tendo posteriormente se voltado ao adultério e à imoralidade, talvez como prostituta no templo de Baal. Ao abandonar o Senhor, ela não somente foi levada à adoração falsa, mas também ao rebaixamento dos padrões morais. Assim era Israel. Assim será o povo que se desvia da genuína dedicação ao Todo Poderoso.
III. A QUESTÃO EXTÁTICA DO PROFETA
As Escrituras sagradas declaram que a fonte dos oráculos proféticos é o próprio Deus. Diz a Bíblia: “E falarei aos profetas e multiplicarei a visão; e, pelo ministério dos profetas, proporei símiles [figuras ou símbolos]”(Os 12:10); “porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”(2Pe 1:21). No entanto, muitos, principalmente os seguidores da teologia liberal, tem denegrido de forma abusiva o conteúdo inspirado e divino da Bíblia Sagrada. Negando o sobrenatural de Deus nas Escrituras, rejeitaram-lhe também a infalibilidade, colocando a Bíblia no mesmo nível de qualquer outro livro, escrito sob inspiração puramente humana. Passaram a interpretar a Bíblia partindo do princípio de que o texto bíblico não dizia realmente o que estava escrito. É uma Teologia destituída de fé e vazia de significados verdadeiramente cristãos. Dentro deste orbe espúrio de negação da inspiração, inerrancia e infalibilidade da Bíblia Sagrada estão os naturalistas. Estes chegam a negar a mensagem divina transmitida pelos profetas. Afirmam que o fenômeno do êxtase, por ocasião do exercício profético, era apenas um estado emocional da pessoa. Com essa falácia neoliberal os naturalistas pretendem igualar os profetas de Deus aos adivinhos, aos falsos profetas hebreus e aos profetas dos deuses das nações vizinhas de Israel. Isso é uma cosmovisão refutada pelas Escrituras Sagradas, e, por conseguinte, deve, resolutamente, ser rejeitada pelos crentes salvos em Cristo Jesus.
Os naturalistas tomam como base para sua interpretação falaciosa o texto de Números 24:4,16, que se refere a Balaão profetizando sobre o povo de Israel. É bom ressaltar que a vinda do Espírito de Deus sobre Balaão(Nm 24:2) foi para fins de revelação, e não para confirmação dele como profeta de Deus. Aliás, em nenhum lugar do Antigo Testamento, Balaão é chamado de profeta, antes é reconhecido como “adivinho”(Js 13:22). Deus, para cumprir seus propósitos, certas vezes usou pessoas que nem estavam vivendo em retidão diante dEle, tal como Balaão, Caifás(João 11:49-52). Deus usou até mesmo a própria jumenta de Balaão. Alguns afirmam ter paralelo com o “êxtase” de Balaão o que ocorreu com Saul quando este perseguia Davi: “[...] e ele também profetizou diante de Samuel, e esteve nu por terra todo aquele dia e toda aquela noite”(1Sm 19:24). Contudo, é bom lembrar que Saul, à época dessa experiência, estava distanciado de Deus(1Sm 16:14). Isto deixa claro que quando o Espírito Santo vem sobre um indivíduo, seja para profetizar ou qualquer outra manifestação característica, isso nem sempre significa que a pessoa está bem diante de Deus (cf João 11:49-51). Saul estava em rebelião contra Deus, todavia foi dominado pelo Espírito(cf. Atos 22:17; Mt 7:22,23). Diante do exposto, conclui-se que não há sustentação à interpretação dos naturalistas sobre a extática dos profetas do Antigo Testamento, quando da transmissão dos oráculos divinos.
CONCLUSÃO
Deus ainda se mantém ocupado na tarefa de se comunicar com a humanidade. Ele não está limitado a qualquer forma. Ele é livre para falar diretamente como, quando e com quem Lhe parecer necessário. Contudo, Deus fala primariamente através das Escrituras, a sua Palavra; do contrário, seríamos vítimas do subjetivismo e da confusão. Frequentemente, ouvimos alguém afirmar que Deus lhe "disse" algo. Embora isto seja possível, permanece o fato de que qualquer revelação presente deverá sempre estar em harmonia com a revelação feita na Palavra. A Palavra de Deus, a Bíblia, continua sendo normativa para a vontade de Deus, e nenhuma contradição seria aceitável. Portanto, através das Escrituras, pelo milagre da inspiração, Deus não apenas falou num passado remoto ou no Antigo Testamento pelos seus profetas, mas continua falando hoje. O Espírito Santo é o grande intérprete, aquele que torna atual a mensagem das Escrituras.
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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. E-Mail: luloure@yahoo.com.br. Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
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Fonte de Pesquisa: Bíblia de Estudo-Aplicação Pessoal. Bíblia de Estudo Pentecostal. Bíblia de Estudo das Profecias. O novo dicionário da Bíblia. Revista Ensinador Cristão. Guia do leitor da Bíblia Ezequiel e Jeremias. A Teologia do Antigo Testamento – Roy B.Zuck. Comentário Bíblico Beacon – CPAD - volume 4. Comentário Bíblico Popular do Novo Testamento – William Macdonald.

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