domingo, 16 de março de 2025

A IGREJA TEM UMA NATUREZA ORGANIZACIONAL

        1º Trimestre de 2025

SUBSÍDIO PARA A LIÇÃO 12

Texto Base: Tito 1:1-9

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tito 1:5).

Tito 1:

1.Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade,

2.em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos,

3.mas, a seu tempo, manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador,

4.a Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador.

5.Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei:

6.aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.

7.Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;

8.mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante,

9.retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes.

INTRODUÇÃO

A Igreja de Cristo é apresentada nas Escrituras como um organismo vivo, formado por pessoas regeneradas e unidas pelo Espírito Santo. Contudo, ela também possui uma natureza organizacional, refletida na estrutura de ministérios e funções necessárias para o cumprimento de sua missão no mundo. Nesta Lição, exploraremos como a Igreja, sendo corpo vivo e espiritual, pode harmonizar sua essência orgânica com a necessidade de organização para servir ao Reino de Deus de maneira eficiente.

No contexto atual, há quem rejeite ou minimize a dimensão organizacional da Igreja, como se estrutura e espiritualidade fossem incompatíveis. Contudo, o ensino bíblico demonstra que ambas as dimensões coexistem em harmonia, sendo indispensáveis para o pleno funcionamento do Corpo de Cristo. A organização da Igreja não anula sua natureza espiritual, mas a potencializa, permitindo que os dons sejam exercidos, a comunhão seja promovida e o Evangelho seja propagado.

Por meio do estudo desta Lição, seremos desafiados a compreender e valorizar o equilíbrio entre organismo e organização, reconhecendo que, em sua sabedoria, Deus projetou a Igreja para refletir sua ordem e glória tanto no âmbito celestial quanto no terreno. Que possamos, como membros deste Corpo, contribuir para o avanço do Reino, alinhados ao propósito divino.

I. TITO E AS IGREJAS NA ILHA D CRETA

1. Tito (Tt.1:4)

“a Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador”.

Tito foi um importante colaborador do apóstolo Paulo e desempenhou um papel significativo no fortalecimento das igrejas, especialmente na ilha de Creta. Na epístola endereçada a ele, Paulo o chama de “verdadeiro filho” na fé (Tt.1:4), expressão que destaca o profundo vínculo espiritual entre os dois, semelhante ao relacionamento de Paulo com Timóteo (1Tm.1:2). Esse termo indica que Tito provavelmente foi conduzido à fé pelo próprio apóstolo.

Embora Tito não seja mencionado no livro de Atos, ele aparece várias vezes nas cartas paulinas, o que atesta sua relevância no ministério apostólico. Em Gálatas, é identificado como grego, o que sugere que sua conversão e ministério eram um testemunho da inclusão dos gentios no plano de salvação (Gl.2:1,3). Sua presença em momentos críticos, como a resolução de problemas na igreja de Corinto (2Co.7:6,7, 13,14), demonstra sua maturidade espiritual e capacidade de liderança.

A epístola a Tito oferece orientações práticas para a organização e a saúde espiritual das igrejas em Creta, uma região conhecida por sua corrupção e imoralidade (Tt.1:12). A missão de Tito era desafiante, mas sua experiência e ligação com Paulo o qualificaram para tal tarefa. Ele também é mencionado em outros contextos, como Nicópolis (Tt.3:12), onde Paulo planejava passar o inverno, o que reforça sua posição como um colaborador confiável e diligente na obra de Deus.

Esse panorama destaca a importância de líderes espirituais preparados, que, como Tito, são chamados a estabelecer a ordem e a promover a sã doutrina, mesmo em ambientes adversos.

2. O pastor de Creta (Tt.1:5)

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei”.

Tito foi designado por Paulo para exercer um papel estratégico e desafiador na ilha de Creta. Como pastor das igrejas locais, sua missão principal era colocar "em boa ordem as coisas que restam" (Tt.1:5), o que indica que havia questões pendentes a serem resolvidas na organização e na condução espiritual das comunidades cristãs na região. Além disso, Tito tinha a responsabilidade de estabelecer presbíteros em cada cidade, consolidando a liderança local e promovendo a estabilidade das igrejas.

A escolha de Tito para essa tarefa demonstra a confiança de Paulo em sua capacidade pastoral, discernimento e compromisso com o evangelho. Creta era conhecida por sua cultura problemática e por características morais decadentes, como mencionado na própria epístola (Tt.1:12,13). Essa realidade tornava o trabalho de Tito ainda mais desafiador, exigindo sabedoria e firmeza na aplicação da doutrina cristã.

Embora o livro de Atos não mencione diretamente o envio de Tito a Creta, há indícios de que Paulo passou pela ilha durante sua viagem a Roma como prisioneiro (Atos 27:8). Contudo, parece mais provável que Tito tenha sido deixado na ilha em outra ocasião, após a primeira libertação de Paulo. A ausência de detalhes no itinerário reforça que o ministério de Tito em Creta fazia parte de um plano estratégico posterior de Paulo para o fortalecimento das igrejas.

Esse cenário enfatiza a importância de líderes espirituais que, como Tito, estão dispostos a enfrentar desafios culturais e espirituais para promover a sã doutrina e estabelecer uma estrutura organizacional que sirva ao propósito do Reino de Deus.

3. Ilha de Creta

A ilha de Creta, localizada no mar Mediterrâneo, foi incorporada ao Império Romano em 67 a.C., formando uma província conjunta com Cirene, no Norte da África, sob os termos da Líbia. Historicamente, Creta era um lugar de importância estratégica, mas a realidade espiritual e social da ilha apresentava desafios significativos no período apostólico.

A igreja cristã em Creta enfrentava uma série de problemas, conforme descrito na epístola de Paulo a Tito. A comunidade cristã local estava desorganizada e sofria com o impacto do comportamento descuidado e permissivo de seus membros. Esse relaxamento espiritual refletia a cultura geral dos cretenses, conforme citado pelo próprio Paulo em Tito 1:12,13, onde ele menciona um poeta cretense que descreveu os habitantes da ilha como "sempre mentirosos, feras ruins, ventres preguiçosos".

Além disso, o contexto eclesiástico era agravado pela presença de judaizantes rebeldes, descritos como insubordinados, mercenários e causadores de divisões (Tt.1:10-16). Esses indivíduos promoviam ensinos contrários à doutrina cristã, buscando lucro e distorcendo a verdade, prejudicando a unidade e a saúde espiritual da igreja.

O ambiente de Creta exigia uma liderança firme e dedicada. Tito foi encarregado por Paulo de organizar as igrejas locais, corrigir os desvios doutrinários e estabelecer presbíteros que pudessem guiar a comunidade de maneira bíblica e consistente. Essa tarefa reflete a importância de um ministério bem estruturado para enfrentar os desafios espirituais e culturais, assegurando que o evangelho de Cristo fosse fielmente vivido e proclamado.

II. A INSTITUCIONALIDADE BÍBLICA DA IGREJA

1. A instrução paulina

A instrução paulina dada a Tito sobre a organização eclesiástica demonstra a visão abrangente e estratégica do apóstolo para o fortalecimento da Igreja. Paulo orienta Tito a "estabelecer presbíteros de cidade em cidade" (Tt.1:5), destacando a necessidade de líderes qualificados para pastorear e guiar as comunidades locais. Essa prática já era evidente em seu ministério, como mencionado em Atos 14:23, onde ele e Barnabé nomearam líderes em várias igrejas, e também em Atos 20:28, quando Paulo exorta os líderes a cuidarem do rebanho de Deus.

O apóstolo não via a organização eclesiástica apenas como uma estrutura hierárquica ou administrativa. Sua abordagem combinava aspectos organizacionais com a necessidade de líderes espiritualmente comprometidos, capazes de combater ensinos errôneos e promover a unidade na fé. Essa ênfase na liderança ministerial refletia o entendimento de que a saúde espiritual das igrejas estava intimamente ligada à qualidade de seus líderes.

Além disso, Paulo reconhecia que a cultura local influenciava o comportamento das comunidades cristãs. Em Creta, os problemas de relaxo espiritual e descuido, como mencionado em Tito 1:12, eram reflexos das características culturais da região, que necessitavam de atenção pastoral. A solução paulina envolvia não apenas corrigir os problemas doutrinários, mas também estabelecer uma liderança sólida, comprometida com os valores bíblicos, para contrabalançar as influências negativas do contexto cultural.

Essa abordagem destaca a visão paulina da Igreja como um organismo vivo, que também requer uma estrutura organizacional eficaz para cumprir sua missão. A liderança local, formada por presbíteros e diáconos (Fp.1:1), era parte essencial do plano de Paulo para garantir que as igrejas permanecessem firmes na fé e funcionassem como comunidades saudáveis e bem direcionadas, tanto espiritualmente quanto organizacionalmente.

2. Igreja como instituição

A visão da Igreja como instituição complementa a sua natureza orgânica, demonstrando que ambas as dimensões — organismo vivo e organização — são essenciais para o funcionamento e crescimento do Corpo de Cristo. Como organismo, a Igreja é um corpo espiritual vivo, sustentado e dirigido pelo Espírito Santo, que habita em seus membros (1Co.3:16,17; 6:19; Ef.2:21). Esse aspecto destaca a espiritualidade da Igreja, sua união mística com Cristo e sua missão de testemunhar o Evangelho.

No entanto, a Igreja também é uma instituição divina que requer organização para cumprir sua missão na terra de forma eficaz. A ideia de institucionalizar refere-se ao estabelecimento de estruturas, regras e práticas que garantam a funcionalidade e a ordem. Esse processo já era evidente nos dias dos apóstolos, quando líderes foram designados, como presbíteros e diáconos (Atos 14:23; 1Tm.3:1-13), e diretrizes foram estabelecidas para o culto, a disciplina e o serviço cristão.

Paulo, ao escrever suas epístolas, revela uma preocupação clara com a organização da Igreja. Ele exorta Tito e Timóteo a estabelecerem líderes qualificados e a ensinarem as comunidades a viverem de acordo com os princípios do Evangelho. Essas instruções refletem a compreensão de que a ordem na Igreja não é contrária à sua espiritualidade, mas um meio de expressá-la de maneira prática e visível.

Portanto, a natureza institucional da Igreja não deve ser vista como um oposto à sua essência espiritual. Ambas coexistem e se complementam, garantindo que a Igreja, como um organismo vivo, funcione de maneira organizada e eficaz, cumprindo sua missão de glorificar a Deus e edificar os crentes. Essa perspectiva ressalta que a institucionalidade não é apenas necessária, mas também bíblica, e deve ser entendida como parte do plano divino para o Corpo de Cristo.

3. Organização

A organização na Igreja Primitiva, conforme descrita no Novo Testamento, reflete um equilíbrio entre a vida espiritual e a estrutura necessária para o funcionamento eficiente do Corpo de Cristo. Os relatos apostólicos demonstram que os primeiros cristãos estabeleceram práticas organizacionais em diversas áreas, evidenciando a importância da ordem e da funcionalidade no âmbito eclesiástico.

a)   Ordem nos cultos. Havia uma preocupação com a edificação mútua e a ordem nos cultos. Em 1Coríntios 14:26-40, Paulo orienta os crentes a garantir que as reuniões fossem conduzidas de forma organizada, com cada participante contribuindo de maneira edificante e ordenada. A ênfase na ordem demonstra que a espiritualidade não é incompatível com a organização.

b)   Consagração de líderes. A Igreja realizava reuniões ministeriais para a consagração de presbíteros, como evidenciado em Atos 14:23. Isso aponta para um reconhecimento de liderança qualificada e a necessidade de estrutura na administração das igrejas locais.

c)   Decisões doutrinárias. O Concílio de Jerusalém, registrado em Atos 15, foi uma reunião convocada para resolver questões doutrinárias cruciais. Esse evento pode ser considerado um precursor de convenções ou assembleias gerais, reforçando a importância de fóruns para debate e tomada de decisões na Igreja.

d)   Serviços sociais. A Igreja também organizava a assistência social para ajudar os necessitados. Os capítulos 8 e 9 de 2Coríntios e Romanos 15:25-27 detalham a coleta e distribuição de recursos para comunidades em situação de vulnerabilidade econômica.

e)   Ética e disciplina. Em 1Coríntios 5:2-5, Paulo orienta a comunidade de Corinto a lidar com casos de pecado grave, indicando a existência de uma espécie de “comissão de ética” para manter a santidade e a unidade da Igreja.

f)    Administração financeira. A tesouraria da Igreja, mencionada em 1Coríntios 16:1-3, era responsável por gerenciar as contribuições dos fiéis para causas específicas, como o auxílio aos necessitados.

g)   Cartas de recomendação. Romanos 16:1,2 e outras passagens mencionam cartas de recomendação usadas para identificar e garantir a legitimidade de líderes ou crentes viajantes, destacando uma prática organizacional necessária para a época.

Esses exemplos demonstram que a organização na Igreja Primitiva não era apenas prática, mas também um reflexo do desejo de atender às necessidades espirituais e físicas da comunidade cristã. Isso confirma que a organização eclesiástica é uma dimensão bíblica e essencial para a missão e a funcionalidade do Corpo de Cristo.

III. A QUESTÃO ATUAL

1. Organismo e Organização

Existe uma ideia errônea atual de se restringir a um local onde as pessoas se reúnam para adorar a Deus, estudar as Escrituras Sagradas, pregar o Evangelho, orar e celebrar as ordenanças eclesiásticas. O que muitos ainda não entenderam é que essas atividades espirituais exigem uma organização.

O conceito de que a Igreja é tanto um organismo vivo quanto uma organização estruturada é essencial para compreender sua funcionalidade bíblica e contemporânea. A abordagem bíblica apresenta a Igreja como um Corpo espiritual (1Co.12:12-27), formado por crentes unidos pela fé em Cristo e vivificados pelo Espírito Santo, mas que, ao mesmo tempo, deve operar como uma instituição organizada, para atender às demandas práticas e espirituais de sua missão.

A dualidade: Organismo e Organização

A metáfora do corpo, utilizada por Paulo, destaca a interdependência e funcionalidade dos membros da Igreja. Cada parte tem um papel único, mas opera em harmonia dentro de uma estrutura comum. No entanto, essa dinâmica espiritual não elimina a necessidade de organização, mas a reforça. Atividades como culto público, pregação, ensino, discipulado e assistência social exigem planejamento, coordenação e liderança, demonstrando que a organização é um aspecto complementar da vida orgânica da Igreja.

Além das demandas internas, a Igreja como organização deve observar as obrigações legais impostas pelo contexto civil. O apóstolo Paulo destaca a importância de sujeição às autoridades governamentais (Rm.13:1-7), reconhecendo que a Igreja, enquanto corpo social, deve cumprir suas responsabilidades como instituição dentro da sociedade. A frase de Jesus, "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt.22:21), exemplifica a necessidade de equilíbrio entre os deveres espirituais e os civis.

A organização da Igreja não é apenas uma questão prática, mas também uma resposta ao seu papel no mundo. Para que a Igreja cumpra sua missão de forma eficaz, é necessário um sistema funcional que cuide da administração de recursos, da formação de líderes, e do cuidado com a membresia. A organização é uma forma de refletir o caráter de Deus, que é um Deus de ordem (1Co.14:33,40).

Assim, rejeitar a natureza organizacional da Igreja é ignorar a realidade de sua missão terrena. A Igreja deve ser um reflexo da ordem divina, manifestada tanto no organismo espiritual quanto na organização prática, equilibrando suas responsabilidades como um corpo celestial e uma entidade funcional na Terra.

2. A experiência pentecostal

O Movimento Pentecostal moderno, em sua origem, estava profundamente relacionado a uma reação ao formalismo e à institucionalidade predominante em muitas denominações tradicionais da época. Essa postura antidenominacionalista foi marcante nos primeiros pentecostais, herdeiros do Movimento Holiness, que enfatizavam a santidade pessoal e rejeitavam estruturas formais que, em sua visão, poderiam sufocar a espontaneidade do Espírito Santo.

Charles Fox Parham, um dos pioneiros do Movimento Pentecostal, simboliza essa rejeição à institucionalização. Aos 20 anos de idade, assumiu o pastorado de uma igreja, na Eudora, Kansas, mas entregou a licença de pregador local. Ao abandonar o pastorado e a afiliação denominacional em 1895, Parham buscou uma forma de ministério independente, acreditando que uma estrutura rígida seria incompatível com o avivamento espiritual que defendia. Ele via o formalismo denominacional como um obstáculo à liberdade do Espírito Santo para agir.

Apesar dessas raízes, a Igreja no período apostólico oferece um exemplo de organização que não comprometeu sua vitalidade espiritual. No episódio de Atos 6:1-7, vemos a Igreja estabelecendo um sistema administrativo para lidar com as queixas sobre a distribuição diária de alimentos às viúvas. Esse modelo foi eficaz, não apenas para resolver conflitos internos, mas também para fortalecer o testemunho da Igreja e permitir que os apóstolos se dedicassem ao ensino e à oração. Como resultado, "crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava grandemente o número dos discípulos" (Atos 6:7).

Equilíbrio entre liberdade espiritual e organização

Embora o antidenominacionalismo tenha sido útil para catalisar o avivamento pentecostal, a história da Igreja demonstra que organização e vida espiritual podem coexistir de forma harmônica. Estruturas administrativas saudáveis não precisam sufocar o agir do Espírito, mas podem, ao contrário, potencializar a missão da Igreja, permitindo que ela opere de maneira eficaz e alcance mais vidas.

Assim, a experiência do Movimento Pentecostal ensina que, embora a institucionalidade excessiva possa ser prejudicial, uma organização equilibrada, como a adotada pela Igreja primitiva, é essencial para sustentar o crescimento e o impacto do Corpo de Cristo.

3. É necessário organizar

A necessidade de organização no Movimento Pentecostal se tornou evidente à medida que o crescimento exponencial trouxe desafios relacionados à unidade, doutrina e administração.

Em 1914, líderes pioneiros das Assembleias de Deus nos Estados Unidos perceberam que o sentimento antidenominacional herdado de Charles Parham e outros líderes do Movimento Holiness poderia comprometer a sustentabilidade do avivamento. A ausência de uma estrutura central dificultava a solução de conflitos internos e a preservação da identidade doutrinária em meio ao rápido crescimento. Para enfrentar esses desafios, foi formado o Concílio Geral das Assembleias de Deus, estabelecendo uma base organizacional capaz de promover a unidade e apoiar as igrejas locais sem sufocar sua autonomia.

No Brasil, o avanço do Movimento Pentecostal liderado pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg também destacou a necessidade de estruturação. Inicialmente, o crescimento das Assembleias de Deus ocorreu de forma espontânea, mas com o passar do tempo, desafios administrativos, doutrinários e organizacionais surgiram. Em 1930, foi criada a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), com o propósito de:

  • Manter a identidade e a unidade doutrinária entre as igrejas no país.
  • Resolver questões administrativas internas e externas.
  • Estabelecer diretrizes claras para o avanço missionário e pastoral.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a institucionalização trouxe ordem ao Movimento Pentecostal, permitindo:

  • Um crescimento saudável e sustentável.
  • A preservação da unidade doutrinária em meio à expansão.
  • A criação de estruturas para discipulado, missões e trabalho social.

Embora a organização tenha enfrentado críticas de alguns setores que temiam a perda da liberdade espiritual, ela se mostrou essencial para que o Movimento Pentecostal se consolidasse como uma das maiores forças do cristianismo contemporâneo. Essa estrutura continua sendo fundamental para enfrentar os desafios do século XXI, equilibrando vida espiritual vibrante com gestão eficiente.

CONCLUSAO

A Igreja de Cristo é simultaneamente um organismo vivo, espiritual, e uma organização estruturada, e essa dualidade não é contraditória, mas complementar. A organização é necessária para que a Igreja, enquanto corpo coletivo, cumpra a sua missão divina de pregar o Evangelho, discipular as nações, servir a comunidade e demonstrar o amor de Deus por meio de obras sociais.

Sem estrutura organizacional, seria inviável administrar os recursos, coordenar ministérios, planejar missões e manter a unidade doutrinária em uma comunidade global tão diversa. Assim como o corpo humano é um organismo vivo que depende de sistemas organizados para funcionar adequadamente, a Igreja precisa de organização para executar sua vocação espiritual com eficiência e ordem.

Portanto, compreender e valorizar a natureza organizacional da Igreja é essencial para que ela continue a glorificar a Deus em todas as suas ações e cumpra a sua missão no mundo.

 

Luciano de Paula Lourenço – EBD/IEADTC

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Bíblia de Estudo – Palavras Chave – Hebraico e Grego. CPAD

William Macdonald. Comentário Bíblico popular (Antigo e Novo Testamento).

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.

Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. CPAD.

O Novo Dicionário da Bíblia. VIDA NOVA.

Pr. Hernandes Dias Lopes. João.

Bíblia de Estudo Apologia Cristã. CPAD.

Pr. Raimundo de Oliveira. Seitas e Heresias. CPAD.

Pr. Esequias Soares. Heresias e Modismos. CPAD.

Silas Daniel. Seitas e Heresias. CPAD.

Dicionário VINE.CPAD.

Dicionário Wycliffe. CPAD.

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