1º Trimestre/2015
Texto Base: Êxodo 20:8-11; 31:12-17
“E disse-lhes: O sábado foi feito por
causa do homem, e não o homem, por causa do sábado” (Mc 2:27).
INTRODUÇÃO
Deus
instituiu um dia para o descanso; um dia para o homem cessar suas atividades
labutais e voltar-se para Ele em adoração e serviço. Santificar o sábado
importava em separá-lo como um dia diferente dos demais, cessando o labor para
descansar, servir a Deus e concentrar-se nas coisas respeitantes à eternidade,
à vida espiritual e à gloria de Deus (Ex 20:8-11; Gn 2:2,3).
A
nação de Israel recebeu a ordem de guardar o sábado quando os Dez Mandamentos
foram dados (Ex 20:8-11). Pouco tempo depois, Deus assim enfatizou: “Tu,
pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados...”
(Ex 31:13a). Nesse dia, o povo não deveria realizar qualquer tipo de trabalho,
nem mesmo relacionado à construção do tabernáculo. Quem desobedecesse era
punido com a morte (Ex 31:15). O sábado representava uma aliança entre Deus e
Israel. Era (como até hoje o é) um caráter distintivo do relacionamento com
Deus, uma marca que mostrava ao mundo que Israel era a “propriedade peculiar de
Deus dentre os povos” (Ex 19:5), um sinal de que ele pertencia a Deus (Ex 31:13);
lembrava-lhe o seu livramento da escravidão do Egito (Dt 5:15).
Segundo o pr. Esequias Soares, “as controvérsias em
torno deste mandamento se referem à sua interpretação. O que acontece é que
existe o sábado institucional e o sábado legal, e quem não consegue separar
estas duas instituições terminam radicalizando indo aos extremos. O mandamento
de santificar o sábado é mais bem compreendido quando se conhece o propósito
pela qual ele foi dado. A necessidade de um dia de repouso após seis dias de
trabalho é universal, mas o sábado é um presente de Deus para Israel”.
1. O SÁBADO DA CRIAÇÃO
1. O shãbat. “E, havendo Deus acabado no dia sétimo a
sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que
tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou
de toda a sua obra, que Deus criara e fizera” (Gn 2:2,3).
Duas vezes o texto sagrado declara que Deus "descansou", ou seja, cessou; esse é
o significado do verbo hebraico usado aqui, shãbat,
"cessar, desistir, descansar".
O substantivo hebraico shabbat,
"sábado", não aparece aqui; sua primeira ocorrência acontece no
relato do maná (Êx 16:23).
2.
Deus completou a sua obra da criação no sétimo dia (Gn 2:2,3). “E,
havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra... E abençoou Deus o dia sétimo e
o santificou”. O texto diz que
Deus acabou a sua obra no sétimo dia e descansou nesse dia e o santificou. Aqui
está a base do sábado institucional e do sábado legal. O sábado legal não foi
instituído aqui. Isso só aconteceu com a promulgação da lei.
Este “descanso” não deve
ser interpretado fisicamente. Por quê? Porque Deus não Se cansa (Is 40:28).
Isto é mera indicação que Deus nada mais criou, que Deus cessou a Sua criação e
passou a contemplá-la. Foi esse sétimo dia o início da convivência entre Deus e
o homem, visto que o homem foi criado no sexto dia (Gn 1:26,31). Ao mesmo tempo
em que Deus estava a contemplar a Sua criação, estava também na companhia do
homem que criara. O sétimo dia,
pois, ao nos revelar o “descanso”, está a nos mostrar a companhia entre Deus e
o homem.
Quando os israelitas, no sétimo dia, nada fazem,
estão a reconhecer que Deus é o Senhor que criou todas as coisas e que eles
querem obedecer-lhe, que eles precisam servir-lhe, que eles reconhecem o Seu
senhorio.
Este “descanso” expressa comunhão com o Senhor.
Este “descanso” deve ser entendido como o resultado de obediência a Deus, de
submissão ao jugo do Senhor, de fidelidade ao Criador, de reconhecimento de que
Ele é o Senhor de todas as coisas. O Senhor Jesus nos mandou tomar sobre nós o
Seu jugo, e aprender d’Ele que é manso e humilde de coração, e, então, encontremos
“descanso em nossas almas” (Mt 11:29).
Ao não efetuar qualquer trabalho no sábado, os
israelitas também expressam a necessidade que o homem tem de restaurar as suas
forças, além de indicar que não é o “suor do rosto” a razão de ser de tudo o
que possuem, mas, sobretudo, a bênção de Deus sobre as suas vidas. O sábado
expressa a limitação e a dependência do homem em relação ao Senhor.
3. A
bênção de Deus sobre o sétimo dia. O sábado da criação aponta para o descanso de Deus
para o mundo inteiro no fim dos tempos: "Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que
entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas"
(Hb 4:9,10). Portanto, “procuremos, pois, entrar naquele
repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência”
(Hb 4:11).
II. O SÁBADO INSTITUCIONAL
O sábado institucional não é necessariamente o
sétimo dia da semana, mas um a cada seis dias.
1.
Desde a criação. O principio de um
dia sagrado de repouso foi instituído antes da lei judaica, existe desde a
criação - “E abençoou Deus o dia sétimo e
o santificou” (Gn 2:3). Isto indica que o propósito divino é que um dia, em
sete, fosse uma fonte de benção para toda a humanidade e não apenas para a
nação judaica. O sábado é o memorial da criação.
No Novo Testamento esse dia era visto como uma
cessação de labor e ao mesmo tempo um dia dedicado a Deus (ler Atos 20:7; 1Co
16:2); um dia para se conhecer melhor a Deus e adora-lo; uma oportunidade para
dedicar-se em casa e em público às coisas de Deus.
Os sabatistas insistem em afirmar que Deus
descansou no sétimo dia da criação (Gn 2:1-3), e daí deduzem que aos homens foi
ordenado que guardassem o sábado desde o tempo da criação. Mas
nenhuma passagem afirma isso. A primeira vez que lemos sobre mandamento
para os homens guardarem o sábado é em Êxodo 16, depois que Moisés tinha guiado os israelitas para fora do
Egito. Gênesis 2:1-3 mostra que Deus descansou no sétimo dia, mas não
ordena aos homens guardarem o sétimo dia. Aliás, a Bíblia nunca ordenou
aos gentios que guardassem o sábado; este foi ordenado somente aos judeus,
desde o tempo de Moisés até Cristo.
2.
Não era mandamento. O
sábado institucional não era mandamento nem havia imposição sobre a sua
observância; talvez, seja essa a razão de aos poucos ter caído no esquecimento.
A linguagem do Quarto Mandamento - "lembra-te
do dia de sábado" (Êx 20:8) - reforça a ideia de que não se trata de
uma instituição nova, mas existente desde a criação.
Segundo o pr. Esequias Soares, “o sétimo dia da criação não era mandamento, mas
revela a necessidade natural do descanso de toda natureza, homem, animal,
máquina, agricultura. O repouso noturno de cada dia não é suficiente para isso.
Deus abençoou e santificou esse dia não somente para comemorar a obra da
criação, mas para que nesse dia todos cessem o trabalho tendo em vista o
descanso físico e mental e também o culto de adoração a Deus. É importante que
todos os seres humanos possam refletir que o universo foi criado por um Deus
pessoal, Todo-poderoso, sábio e transcendente, que planejou todas as coisas que
foram criadas. Parece que esse dia foi logo esquecido pelo gênero humano, mas
há resquício dele em muitos povos da antiguidade”.
3.
Os patriarcas não guardaram o sábado. Segundo o pr.
Esequias Soares, “o livro de Gênesis
não menciona os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó observando o sábado. Irineu de
Lião diz que Abraão, "sem circuncisão e sem observância do sábado,
acreditou em Deus e lhe foi imputado a justiça e foi chamado amigo de
Deus" (Contra as Heresias, Livro IV, 16.2)”.
III. O SÁBADO LEGAL
1.
Significado. O sábado legal é
o sétimo dia da semana no calendário judaico, marcado para repouso e adoração,
que foi dado aos israelitas no Sinai; é exclusividade dos israelitas e nenhum
povo da terra recebeu tal responsabilidade, nem mesmo a igreja. É um sinal entre Deus e Israel. O texto
Bíblico, em Êxodo 31:13, é claro sobre isso: “Tu, pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis
meus sábados; porquanto isso é um SINAL entre mim e vós nas vossas gerações;
para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica”. Ainda, em Êxodo
31:17a, diz: “Entre mim e os filhos de
Israel será um SINAL para sempre...”. Também, Ezequiel 20:10-12,20 afirma
isso. Isto é prova e demonstração de que o povo de Israel havia sido separado
das nações pelo Senhor para ser Sua propriedade peculiar (Ex 19:5), prova de
que o sábado legal não se trata de instituição que se tenha transportado para o
novo povo que se formou de judeus e gentios, a Igreja (Ef 2:11-16). É o segundo sinal para os israelitas,
que já tinham a circuncisão como
primeiro sinal desse concerto (Gn 17:10-14). Ao longo dos séculos, os judeus
trataram esses dois preceitos com a mesma atenção.
O Decálogo registrado em Deuteronômio apresenta o sábado como memorial da saída dos
israelitas do Egito: "Porque te lembrarás que foste servo na terra do
Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão forte e braço estendido;
pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado"
(Dt 5.15). Portanto, o sábado legal é mandamento exclusivo para o povo de
Israel.
2.
O sábado do Decáogo. O tema do
sábado havia sido tratado por ocasião do maná (Êx 16:23-30) e no Decálogo, Quarto
Mandamento (Êx 20:8-11); Javé retoma o assunto aqui para que o presente
preceito seja observado de maneira apropriada.
Quando da entrega dos mandamentos no Sinai, o
Senhor foi bem claro ao dizer os israelitas que deveriam guardar o sábado, bem
como os estrangeiros que habitassem em suas portas. Ou seja, tratava-se de um
mandamento destinado única e exclusivamente à nação israelita, e que os
estrangeiros que habitassem entre eles deveria também guardar, já que não se
permitiria esta “brecha” para se violar este sinal distintivo entre o povo de
Israel e Deus, até porque o estrangeiro que habitasse em Israel deveria se
sujeitar à lei de onde estava a viver.
Vemos, logo de início, que o sábado do Decálogo é uma disposição que diz respeito apenas entre Deus
e Israel e, por isso mesmo, o estrangeiro que não habitava em Israel não
era obrigado a observá-lo. Eis a razão precípua pela qual não se pode estender
o sábado aos gentios e, mais precisamente, à Igreja que, apesar de ser o povo
de Deus, não é Israel e, deste modo, não está sujeita ao mandamento da guarda
do sábado, como, aliás, ficou bem claro no concílio
de Jerusalém, quando a Igreja, seguindo o parecer do Espírito Santo, não
determinou a guarda do sábado aos salvos em Cristo Jesus (At 15:28,29).
3.
Propósito do Sábado legal. “Seis dias
se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do descanso, santo ao Senhor;
qualquer que no dia do sábado fizer algum trabalho, certamente morrerá.
Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando-o nas suas gerações
por aliança perpétua” (Ex 31:15,16).
a) Estabelecer um sinal de santificação. Mostrar a todas as nações que Israel era a “propriedade
peculiar de Deus entre os povos”, um povo que havia sido separado por Deus para
ser “reino sacerdotal e povo santo” (Ex 19:6). O sábado é, pois, a verdadeira
“marca visível” da aliança do Sinai, a “marca da lei” e, por isso mesmo, não
pode ser assumido por quem não mais vive na lei, como é o caso da Igreja (Gl 3:23-29).
b) Criar uma semelhança entre Deus e Israel. Mostrar que, além de povo separado, Israel era um
povo que era “imagem e semelhança de Deus”. Por que se escolheu o sétimo dia
para guarda entre os sete dias da semana? Porque foi no sétimo dia que Deus havia
descansado de Suas obras (Gn 2:2,3). Quando Israel deixava de fazer toda e
qualquer obra no dia sétimo, estava a “imitar” o seu Deus, estava a repetir-lhe
o gesto, estava se mostrando semelhante ao Senhor, dando um testemunho de que
era “o povo de Deus”, de que procurava seguir os passos dados pelo seu Deus.
c) Estabelecer um dia de descanso. O mandamento consiste em parar de trabalhar a
cada seis dias e é extensivo a todos os israelitas, seus familiares e também
servos, animais de carga, convidados, imigrantes estrangeiros e qualquer um que
esteja dentro de seus portões (Êx 20:10). Mas aqui se omite uma informação que
aparece em Deuteronômio e revela o aspecto humanitário do mandamento: "para que o teu servo e a tua serva descansem
como tu" (Dt 5:14b). Em Êxodo, é revelado o caráter espiritual, pois
se mostra que a lei do sábado deriva da criação e se refere ao sétimo dia em
que Deus descansou (Êx 20:11).
Todos nós precisamos de
descanso. Sem um tempo para fugir do alvoroço, a vida perde o significado.
Assim como nos tempos de Moisés, não é fácil em nossos dias obter um tempo para
folga, mas Deus nos lembra que sem o descanso esquecemos o propósito das nossas
ocupações e perdemos o equilíbrio crucial para uma vida de fidelidade.
d) Ser um
dia de adoração a Deus. Além de ser um
“descanso”, uma cessação de labutas, o sábado deveria ser “santo ao Senhor”, ou
seja, se os israelitas deveriam “cessar as suas obras”, deixar de trabalhar, de
fazer as atividades necessárias à sua sobrevivência, deveriam separar este dia
para Deus. Assim, não se tratava apenas de um “repouso semanal” para o
exercício das atividades diárias, mas de um dia destinado à adoração ao Senhor,
um dia dedicado a Deus.
Os judeus, no dia destinado a mostrar a sua “marca
distintiva” como “propriedade peculiar de Deus dentre os povos”, reuniam-se
para adorar a Deus, orando, louvando e meditando nas Escrituras. Separavam este
dia para Deus, não só não realizando suas atividades diárias, mas,
principalmente, reservando este tempo para adorar a Deus, para reconhecer-lhe a
soberania e senhorio.
Assegure-se de que seu
dia de descanso propiciará momentos revigorantes e de comunhão com Deus.
IV. UM PRECEITO CERIMONIAL
1. O sacerdote no Templo. O Quarto Mandamento é o único preceito cerimonial
do Decálogo, pois os sacerdotes podiam violar o sábado e ficar sem culpa - “Ou não
tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e
ficam sem culpa?” (Mt 12:5). Neste
texto e em seus análogos, exarados em Marcos 2:23-26 e Lucas 6:1-4, o Senhor
Jesus mencionou um trecho do Antigo Testamento em que Davi comeu o pão da
proposição na casa do sacerdote Abiatar, quando estava sob a perseguição de
Saul (1Sm 21:6). A lei proibia que estranhos comessem do pão sagrado da
proposição, o qual era restrito aos sacerdotes (Êx 29:33; Lv 22:10). Assim, o
Senhor ensina que a vida está acima do sábado. Desta feita, o Senhor Jesus
colocou a guarda do sábado na mesma categoria do preceito cerimonial. Para os
demais preceitos de Decálogo não havia concessão, ou seja, a punição era
inevitável para alguma violação deliberada e consciente.
2.
A circuncisão no sábado. “E, no dia oitavo, se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio”
(Lv 12:3). “Pelo motivo de que Moisés vos
deu a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), no sábado
circuncidais um homem. Se o homem recebe a circuncisão no sábado, para que a
lei de Moisés não seja quebrantada, indignais-vos contra mim, porque, no
sábado, curei de todo um homem?” (João 7:22,23). Aqui, Jesus lembrou às autoridades religiosas, com base
na própria lei de Moisés, que a circuncisão de uma criança pode ser feita num
dia de sábado. A lei prescreve que o menino deve ser circuncidado no oitavo dia
de seu nascimento. Se o oitavo dia coincide com sábado a circuncisão deve ser
realizada neste dia, nem antes e nem depois. Assim, Jesus mais uma vez considera
o Quarto Mandamento um preceito cerimonial e coloca a circuncisão acima do
sábado. Um mandamento moral é obrigatório por sua própria natureza.
V. O SENHOR DO SÁBADO
1. O sábado e a tradição dos anciãos. Segundo o pr. Esequias Soares, “a tradição dos
anciãos criou 39 proibições concernentes ao sábado. Por essa razão, o Senhor
Jesus entrou diversas vezes em conflito com os escribas e fariseus”.
Em Seu conflito
com os fariseus nosso Senhor salientou que eles entendiam completamente mal os mandamentos do
Antigo Testamento. Buscavam
tornar a obediência do sábado mais rigorosa do que Deus havia ordenado. Não era errado comer no sábado, ainda que
o alimento tivesse de ser obtido
ao debulhar o grão da espiga nas mãos. Semelhantemente, não era errado fazer o bem no dia de sábado. As curas eram
uma obra de misericórdia, e
o Senhor do sábado é misericordioso.
Nos evangelhos,
encontramos pelo menos seis conflitos
diferentes em torno desse dia: (a)
duas vezes nos sinóticos: as espigas colhidas no sábado (Mc 2:23-28; Lc 6:1-5;
Mt 12:1-8) e o homem da mão ressequida (Mc 3:1-6; Lc 6:6-11; Mt 11:9-14); (b) duas vezes no evangelho de Lucas:
a cura de uma enferma (Lc 13:10-17) e a cura de um hidrópico (Lc 14:1-6); e (c) duas vezes no evangelho de João: a
cura de um paralítico no tanque de Betesda (João 5) e a cura de um cego de
nascença (João 9). Estes textos mostram que Jesus Se declara o Senhor, o dono,
o criador do sábado (Mt 12:8; Mc 2:28; Lc 6:5). Jesus disse que os seres
humanos não foram criados para observar o sábado, mas que o sábado foi criado
para o benefício deles (Mc 2:27).
Cumprir o Quarto Mandamento no contexto do Novo Testamento não significa
apenas evitar o mal, mas também fazer o bem. Isto se vê claramente em Mateus
12:1, onde Jesus ensina a resgatar a ovelha caída numa cova no dia de sábado,
não a deixando morrer. Na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10:25-37), Jesus
descreve três atitudes em relação ao próximo: (a) os assaltantes atacam, roubam
e fazem apenas o mal; (b) os religiosos (o sacerdote e o levita) não fazem o
mal, mas também não fazem o bem; e (c) o samaritano cumpre a lei positivamente
ao fazer o bem, dedicando-se e até ajudando além do necessário. Preservar a
vida e promover o bem são os princípios éticos do ensino de nosso Senhor Jesus
Cristo.
2.
Jesus é o Senhor do sábado (Mc 2:28). O evangelho do apóstolo João evidencia que Jesus
cumpriu o sábado (Jo 15:10). Além disso, Jesus revoluciona o sábado, dando-lhe Seu devido valor, ou seja: o sábado é um dia para
promover o bem, preservar a vida e possibilitar um descanso merecido.
Os religiosos da época
de Jesus não faziam nada no sábado, só para não transgredir alguma lei, evidenciando
uma ética pessimista e reducionista. Jesus, entretanto, mostra o valor real do
sábado.
Certa vez, num
dia de sábado, Jesus e seus discípulos estavam passando pelas searas. Seus
discípulos entraram a colher espigas e a comer. A lei permitia que se servissem
do grão no campo do seu vizinho, contanto que não se usassem a foice (Dt
23:25). Mas os fariseus, catadores legalistas de lêndeas, os acusaram de terem
quebrado o sábado. Jesus respondeu à sua queixa ridícula lembrando um incidente
na vida de Davi. Não era culpa de Davi estar no exílio. Uma nação pecaminosa o
rejeitara. Se ele tivesse recebido seu lugar de direito, ele e seus seguidores
não teriam de comer o pão da proposição. O Senhor não reprovou seus discípulos,
pois eles não fizeram nada de errado.
Jesus relembrou
aos fariseus que os sacerdotes violam o sábado por matar e sacrificar animais e
por realizar muitas outras ocupações servis (Nm 28:9,10), mas mesmo assim ficam
sem culpa porque estão ocupados no serviço de Deus. Os fariseus sabiam que os
sacerdotes trabalhavam todo sábado no templo sem profaná-lo. Por que então
deveriam criticar os discípulos por agirem daquela forma na presença de
“Alguém” que é “maior que o templo”?(Mt 12:6).
Em Oséias 6:6, o
Senhor disse: “Misericórdia quero e não
holocaustos”. Deus coloca a compaixão antes do ritual. Ele preferira ver
seu povo apanhando espigas no sábado para satisfazer sua fome a observar o dia
tão rigidamente a ponto de infligir angústia física. Se os fariseus tivessem
percebido isso, não teriam condenado os discípulos. Todavia, valorizavam a
aparência externa, o formalismo, acima do bem-estar humano.
Depois o Salvador
acrescentou: “Porque o Filho do Homem até
do sábado é Senhor”. Foi Ele quem, em primeiro lugar, instituiu a lei;
portanto, Ele era o mais qualificado para interpretar seu verdadeiro
significado.
A proibição
contra o serviço no sábado nunca teve o objetivo de se aplicar ao serviço de
Deus (Mt 12:5), as obras de necessidade (Mt 12:3-4) ou obras de misericórdia
(Mt 12:11-12).
3.
Dia do culto cristão. O dia do culto cristão é qualquer dia
da semana. Entretanto, o domingo é um dia especial em que os cristãos,
costumeiramente, se reúnem para oferecer ao Senhor um culto mais desprendido
das atividades labutais; é o dia dedicado à glorificação do Senhor vitorioso
sobre a morte.
- Nosso
Senhor Jesus Cristo ressuscitou e venceu a morte no primeiro dia da semana,
oferecendo-nos, assim, o maior sábado, o maior livramento: a libertação do
domínio do pecado (Mt 16:9). Também foi nesse dia que Ele apareceu aos
discípulos (João 20:1,19,26), impetrou a Sua bênção e outorgou a grande
comissão (Lc 24:13,36,50; Mt 28:19,20).
- Segundo
alguns estudiosos, o Espírito Santo desceu e inaugurou a Igreja num domingo,
pois o Pentecostes é comemorado cinquenta dias depois do sábado da Páscoa. E foi
nesse mesmo dia que Pedro levou pelo menos três mil pessoas ao arrependimento e
batismo.
- Há
evidências históricas de que a igreja primitiva e a igreja apostólica guardavam
o primeiro dia da semana muito antes do imperador Constantino: (a) Atos 20:7
comprova que havia ceia, reunião, exortação e pregação, enquanto 1Coríntios 16:1,2
sustenta que havia campanhas e recolhimento de oferta no dia de domingo; (b) No
início do segundo século da era cristã, Irineu dá testemunho de que "no dia do Senhor, todos nós, os cristãos,
guardamos o dia de repouso, meditando na lei e regozijando-nos nas obras de
Deus".
- No
Novo Testamento, a palavra correspondente a "domingo" é Kyriaké Hémera, dia do Senhor (Ap 1:10). E o termo "dia do Senhor" contém a ideia fundamental da palavra hebraica
"sábado", "descanso", porque o verdadeiro
repouso eterno está em Cristo (Hb 4:9-11; Ap 14:13).
- Em
Isaías 58:13,14 o profeta explica como reverenciar o dia do Senhor. Primeiro
ele aponta o lado negativo, aquilo que não se deve fazer nesse dia: profanar o
nome do Senhor, cuidar dos próprios interesses, pretender fazer a própria
vontade, falar palavras inúteis. Depois, o profeta salienta a versão
construtiva, aquilo que deve ser feito: considerar este dia como dia do Senhor,
honrá-lo e deleitar-se em Deus. Percebe-se, então, que o objeto da reverência
solene não é o dia em si, mas o Senhor do dia.
CONCLUSÃO
O Novo Testamento não exige que se guarde o
sábado. Segundo Paulo, nós estamos debaixo de uma Nova Aliança caracterizada
pela graça (Rm 8:6-13) e não somos julgados por causa de "dia de festa, ou
lua nova, ou sábados" (Cl 2:16). Exigir a guarda do sábado como condição
para a salvação não é cristianismo e caracteriza-se como doutrina de uma seita.
Também não é certo dizer que o sábado foi transferido para o domingo. O sábado
era uma sombra; a essência é Cristo (Cl 2:16,17). A ressurreição de Cristo
marcou um novo começo, o dia do Senhor (Ap 1:10) representa esse início.
O importante não é observar o sétimo dia no sábado,
ou em qualquer outro dia, de forma legalista ou casuística (Rm 14:5), mas santificá-lo
como o dia da vitória do Senhor, cultuando na igreja, na devoção particular, na
adoração e na santa comunhão com os irmãos. Um dia de descanso na semana, como
costumeiramente fazemos aos domingos, abre-nos a perspectiva para o grande e
futuro Dia do Senhor, quando cessará todo trabalho cansativo do homem (Ap
21:4). Pelo cumprimento ou não desse mandamento podemos observar o progresso ou
a decadência espiritual de um povo.
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Luciano de Paula Lourenço - Disponível no Blog:
http://luloure.blogspot.com
Referências
Bibliográficas:
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
Revista Ensinador Cristão – nº 61. CPAD.
Eugene
H. Merrill – História de Israel no Antigo Testamento. CPAD.
Paul
Hoff – O Pentateuco. Ed. Vida.
Leo
G. Cox - O Livro de Êxodo - Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
Victor
P. Hamilton - Manual do Pentateuco. CPAD.
Esequias
Soares. Os Dez Mandamentos – Valores Divinos para uma Sociedade
em Constante Mudança. CPAD.
Hans Ulrich Reifler. A
ética dos dez Mandamentos. Vida Nova.
Que prossigas em ser canal do eterno.
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